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O bullying começa em casa?

O bullying começa em casa?

Francisco Godinho - 13-08-2011

A palavra bullying ainda é pouco conhecida do grande público. De origem inglesa e ainda sem tradução em português, no uso coloquial entre aqueles que (…)

O bullying começa em casa?
O que é o bullying?
A palavra bullying ainda é pouco conhecida do grande público. De origem inglesa e ainda sem tradução em português, no uso coloquial entre aqueles que comunicam em inglês, bullying é frequentemente usado para qualificar comportamentos agressivos, ao descrever uma forma de assédio expresso por alguma pessoa que está, de alguma forma, em condições de exercer o seu poder sobre alguém ou sobre um grupo mais fraco e pode definir-se em três termos essenciais:
• o comportamento é agressivo e negativo;
• o comportamento é executado repetidamente;
• o comportamento ocorre num relacionamento onde há um desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas.

Os actos de violência (física ou não) ocorrem de forma intencional e repetitiva contra uma ou mais pessoas, geralmente jovens de qualquer dos sexos, que se encontram impossibilitados de fazer frente às agressões sofridas, sendo que tais comportamentos não apresentam motivações específicas ou justificáveis, o que, em última instância, significa dizer que, de forma “natural” os mais fortes utilizam os mais fracos como meros objectos de diversão, prazer e poder com o intuito de maltratar, intimidar, humilhar e amedrontar as suas vítimas.

As principais formas de bullying são verbal, físico e material, psicológico e moral, sexual, virtual (ciberbullying), dividindo-se o bullying em duas categorias: bullying directo e bullying indirecto (também conhecido como agressão social).

O bullying directo
O bullying directo é a forma mais comum entre os agressores (bullies) masculinos.

A agressão social ou bullying indirecto
A agressão social ou bullying indirecto é a forma mais comum em bullies do sexo feminino e crianças pequenas, e é caracterizada por forçar a vítima ao isolamento social. Este isolamento é obtido através de uma vasta variedade de técnicas, que incluem:
• espalhar comentários e boatos;
• recusa em se socializar com a vítima;
• intimidar outras pessoas que se desejam socializar com a vítima;
• criticar o modo de vestir ou outros aspectos socialmente significativos (incluindo a etnia da vítima, religião, incapacidades etc.).

As consequências do bullying são as mais variadas possíveis e dependem muito de cada indivíduo, da sua estrutura, vivências, pré-disposição genética, bem como da forma e intensidade das agressões. No entanto, todas as vítimas, sem excepção, sofrem (em maior ou menor proporção) com os ataques de bullying. Muitas delas transportarão para vida adulta marcas profundas provenientes das agressões, e necessitarão de apoio psiquiátrico e/ou psicológico para a superação do problema.

Os problemas mais comummente observados são:
• desinteresse pela escola;
• problemas psicossomáticos;
• problemas psíquicos/comportamentais como transtorno do pânico, depressão, anorexia e bulimia, fobia escolar, fobia social, ansiedade generalizada, entre outros.

O bullying também pode agravar problemas pré-existentes, devido ao tempo prolongado de stress que a vítima é submetida. Em casos mais graves, podemos observar quadros de esquizofrenia, homicídio e suicídio.

Em que locais pode haver bullying?
Verifica-se sobretudo nas escolas, nos locais de trabalho, nas áreas de residência, etc., com especial realce para a internet.

Escola
O bullying escolar ocorre desde que existem instituições de ensino. Porém, a partir das décadas de 70-80, passou a ser objecto de estudos científicos nos países escandinavos, em função da violência existente entre estudantes e suas consequências no âmbito escolar. No final de 1982, o norte da Noruega foi palco de um acontecimento dramático, no qual três crianças com idades compreendidas entre 10 e 14 anos se suicidaram por terem sofrido maus-tratos pelos seus colegas de escola. Nessa época, o pesquisador norueguês Dan Olweus iniciou grandes pesquisas que envolveram alunos de vários níveis escolares, pais e professores, e culminaram em campanhas antibulying em várias partes do mundo.

Nas escolas, o bullying geralmente ocorre em áreas com supervisão adulta mínima ou inexistente. Ele pode acontecer em praticamente qualquer parte, dentro ou fora do prédio da escola.

Em anos recentes, muitas vítimas têm movido acções judiciais directamente contra os agressores por "imposição intencional de sofrimento emocional", incluindo as suas escolas como acusadas, sob o princípio da responsabilidade conjunta. As vítimas norte-americanas e as suas famílias têm outros recursos legais, tais como processar uma escola ou um professor por falta de supervisão adequada, violação dos direitos civis, discriminação racial ou de género, ou assédio moral.

O bullying nas escolas (ou noutras instituições superiores de ensino) pode também assumir, por exemplo, a forma de avaliações abaixo da média.

Local de trabalho
O bullying nos locais de trabalho (algumas vezes chamado "Bullying Adulto") é descrito pelo Congresso Sindical do Reino Unido como "um problema sério que muito frequentemente as pessoas pensam que seja apenas um problema ocasional entre indivíduos, mas o bullying é mais do que um ataque ocasional de raiva ou briga: é uma intimidação regular e persistente que solapa a integridade e a confiança da vítima do bully e é frequentemente aceite ou mesmo encorajada como parte da cultura da organização".

Vizinhança
Entre vizinhos, o bullying normalmente toma a forma de intimidação por comportamento inconveniente, tais como barulho excessivo para perturbar o sono e os padrões de vida normais ou fazer queixa às autoridades (tais como a polícia) por incidentes menores ou forjados. O propósito desta forma de comportamento é fazer com que a vítima fique tão desconfortável que acabe por se mudar da propriedade. Porém, nem todo o comportamento inconveniente pode ser caracterizado como bullying, uma vez que a falta de sensibilidade pode ser uma explicação para os abusos.

Política
O bullying entre países ocorre quando um país decide impor sua vontade a outro. Isto é feito normalmente com o uso de força militar, a ameaça de que a ajuda e doações não serão entregues a um país menor ou não permitir que o país menor se associe a uma organização de comércio.

Militar
Em 2000 o Ministério da Defesa (MOD) do Reino Unido definiu o bullying como "o uso de força física ou abuso de autoridade para intimidar ou vitimizar outros, ou para infligir castigos ilícitos".

Todavia, é afirmado que o bullying militar ainda está protegido contra investigações abertas. O caso das Deepcut Barracks, no Reino Unido, é um exemplo do governo se recusar a conduzir um inquérito público completo quanto a uma possível prática de bullying militar. Alguns argumentam que tal comportamento deveria ser permitido por causa de um consenso académico generalizado de que os soldados são diferentes dos outros postos.

Dos soldados espera-se que estejam preparados para arriscarem as vidas, e alguns acreditam que o seu treino deveria desenvolver o espírito de grupo para aceitar isso. Em alguns países, rituais humilhantes entre os recrutas têm sido tolerados e mesmo exaltados como um "rito de passagem" que constrói o carácter e a resistência; enquanto noutros, o bullying sistemático dos postos inferiores, jovens ou recrutas mais fracos pode na verdade ser encorajado pela política militar, seja tacitamente ou abertamente.

As forças armadas russas geralmente também fazem com que os candidatos mais velhos ou mais experientes abusem – com socos e pontapés – dos soldados mais fracos e menos experientes.

Alcunhas ou apelidos (dar nomes)
Normalmente, uma alcunha (apelido) é dada a alguém por um amigo, devido a uma característica única daquele. Em alguns casos, a concessão é feita por uma característica que a vítima não quer que seja chamada, tal como uma verruga ou forma obscura em alguma parte do corpo. Em casos extremos, os professores podem ajudar a popularizá-la, mas isso é geralmente percebido como inofensivo ou o golpe é subtil demais para ser reconhecido. Há uma discussão sobre se é pior que a vítima conheça ou não o nome pelo qual é chamada. Todavia, uma alcunha pode por vezes tornar-se tão embaraçosa que a vítima terá de se mudar (de escola, de residência ou de ambos).

Cibernet
Uma das formas mais agressivas de bullying, que ganha cada vez mais espaços sem fronteiras é o ciberbullying, ou bullying virtual. Os ataques ocorrem através de ferramentas tecnológicas tais como telemóveis, câmaras de vídeo, máquinas fotográficas, internet e seus recursos (e-mails, sites de relacionamentos, vídeos). Além da propagação das difamações ser praticamente instantânea, o efeito multiplicador do sofrimento das vítimas é imensurável. O ciberbullying extrapola, em muito, os muros das escolas e expõe a vítima ao escárnio público. Os praticantes dessa modalidade de perversidade também se valem do anonimato e, sem qualquer constrangimento, atingem a vítima da forma mais vil possível. Os traumas e consequências advindos do bullying virtual são verdadeiramente dramáticos.

Os bullies (agressores) escolhem os alunos que estão em franca desigualdade de poder, seja por uma questão socioeconómica, de idade, de porte físico ou até porque numericamente estão em posições desfavoráveis. Além disso, as vítimas, duma forma geral, já apresentam algo que destoa do grupo (são tímidas, introspectivas, “marrões” (nerds)[1], muito magras, de credo, raça ou orientação sexual diferentes, etc.); facto que, por si só, já as torna pessoas com baixa auto-estima e, portanto, mais vulneráveis aos ofensores. Não há justificativas plausíveis para a escolha, mas certamente os alvos são aqueles que não conseguem fazer frente às agressões sofridas, o que faz dele um acto absolutamente cobarde.

Como se detectam as vítimas?
Nos casos de bullying é fundamental que os pais e os profissionais da escola atendam especialmente aos seguintes sinais:
• Na Escola: No recreio encontram-se isoladas do grupo, ou perto de alguns adultos que possam protegê-las; na sala de aula apresentam postura retraída, faltam frequentemente às aulas, mostram-se comummente tristes, deprimidas ou aflitas; nos jogos ou actividades em grupo, ou são excluídas, ou são sempre as últimas a serem escolhidas; aos poucos vão-se desinteressando das actividades e tarefas escolares e, em casos mais dramáticos, apresentam hematomas, arranhões, cortes, roupas danificadas ou rasgadas.
• Em Casa: Frequentemente queixam-se de dores de cabeça, enjoo, dores de estômago, tonturas, vómitos, perda de apetite, insónia. Todos esses sintomas tendem a ser mais intensos no período que antecede o horário de as vítimas entrarem na escola. Mudanças frequentes e intensas de estado de humor, com explosões repentinas de irritação ou raiva. Geralmente não têm amigos ou têm poucos; existe uma escassez de telefonemas, emails, sms, convites para festas, passeios ou viagens com o grupo escolar. Passam a gastar mais dinheiro que o habitual, na cantina ou com a compra de objectos diversos, com o intuito de presentear os outros. Apresentam diversas desculpas (inclusive doenças físicas) com o intuito de faltar às aulas.

As vítimas contam o que lhes está a acontecer?
As vítimas de bullying tornam-se reféns do jogo do poder instituído pelos agressores. Raramente pedem ajuda às autoridades escolares ou aos pais. Agem assim, dominadas pela falsa crença de que tal postura é capaz de evitar possíveis retaliações dos agressores e por acreditarem que, ao sofrerem sozinhos e calados, pouparão os seus pais da decepção de ter um filho frágil, cobarde e não popular na escola.

Como se detectam os agressores?
O que podemos observar no comportamento de um praticante de bullying é que:
• Na Escola: Na escola os bullies (agressores) fazem brincadeiras de mau gosto, ridicularizam, colocam apelidos pejorativos, difamam, ameaçam, constrangem e menosprezam alguns alunos. Perturbam e intimidam por meio de violência física ou psicológica. Furtam ou roubam dinheiro, lanches e pertences a outros estudantes. Costumam ser populares na escola e estão sempre enquadrados em grupos. Divertem-se à custa do sofrimento alheio.

• Em Casa: No ambiente doméstico, mantém atitudes desafiadoras e agressivas em relação aos familiares. São arrogantes no agir, falar e vestir, demonstrando superioridade. Manipulam pessoas para se safarem das confusões em que se envolveram. Costumam voltar da escola com objectos ou dinheiro que não possuíam. Muitos agressores mentem, de forma convincente, e negam as reclamações da escola, dos irmãos ou dos empregados domésticos.

As crianças que praticam bullying não têm, necessariamente, traços de psicopatia, porém, encontramos uma minoria que apresenta traços psicopáticos. Os bullies, ou seja, os agentes agressores dentro do fenómeno bullying podem ser classificados em diversos grupos:
• Muitos comportam-se assim por uma nítida falta de limites nos seus processos educacionais no contexto familiar.
• Outros carecem de um modelo de educação que seja capaz de associar a auto-realização pessoal com atitudes socialmente produtivas e solidárias. Tais agressores procuram nas acções egoístas e maldosas um meio de adquirir poder e status, e reproduzem na sociedade os paradigmas domésticos.
• Existem ainda aqueles que vivenciam dificuldades momentâneas, como a separação dos pais, ausência de recursos financeiros, doenças crónicas ou terminais na família. A violência praticada por esses jovens é um facto novo no seu modo de agir e, portanto, passageiro.
• E, por fim, deparamo-nos com a minoria dos opressores, porém a mais perversa. Trata-se de crianças ou adolescentes que apresentam a transgressão como base estrutural das suas personalidades. Falta-lhes o sentimento essencial para o exercício do altruísmo: a empatia. Esses jovens sim, apresentam traços marcantes de psicopatia, o denominado transtorno da conduta, com desejos mórbidos em ver sofrer os outros.

O fenómeno começa em casa?
Para que os filhos possam ser mais empáticos e agir com respeito ao próximo é necessário primeiro rever o que ocorre dentro de casa. Os pais, muitas vezes, não questionam as suas próprias condutas e valores, eximindo-se da responsabilidade de educadores. O exemplo dentro de casa é fundamental. O ensinamento da ética, da solidariedade e do altruísmo deveria iniciar-se ainda no berço e estender-se para o âmbito escolar, onde as crianças e adolescentes passarão grande parte do seu tempo.

Mas, será isto o que de facto ocorre? Não, uma vez que o individualismo exacerbado (uma cultura dos tempos modernos onde o ter é muito mais valorizado que o ser), com distorções absurdas dos valores éticos, propiciou a prática do bullying.

Vivemos tempos velozes, com grandes mudanças em todas as esferas sociais e, nesse contexto, a educação tanto no lar quanto na escola tornou-se rapidamente ultrapassada, confusa, sem parâmetros ou limites. Os pais passaram a ser permissivos em excesso e os filhos cada vez mais exigentes, egocêntricos. As crianças tendem a comportar-se em sociedade de acordo com os modelos domésticos. Muitos deles não se preocupam com as regras sociais, não reflectem sobre a necessidade delas no convívio colectivo e nem sequer se preocupam com as consequências dos seus actos transgressores.

Cabe à sociedade como um todo transmitir às novas gerações valores educacionais mais éticos e responsáveis. Afinal, são estes jovens que estão a delinear o que a sociedade será daqui em diante. Auxiliá-los e conduzi-los na construção de uma sociedade mais justa e menos violenta, é obrigação de todos nós.
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[1] Nerd é um termo que descreve, de forma estereotipada, muitas vezes com conotação depreciativa, uma pessoa que exerce intensa actividade intelectual, que são consideradas inadequadas para a sua idade, em detrimento de outras actividades mais populares. Por essa razão, um nerd muitas vezes não participa nas actividades físicas e é considerado pelas outras pessoas um solitário. Pode descrever uma pessoa que tenha dificuldades de integração social e seja atrapalhada, mas que nutre grande fascínio por conhecimento ou tecnologia.

 

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