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De Belenos às Maias

De Belenos às Maias

Francisco Godinho - 01-05-2014

A nossa memória ancestral, em grande parte celta, conduz-nos a reviver os festivais das quatro estações de forma similar aos antepassados. Ditos festivais (…)

De Belenos às Maias

De Belenos às Maias

A nossa memória ancestral, em grande parte celta[1], conduz-nos a reviver os festivais das quatro estações de forma similar aos antepassados. Ditos festivais marcavam o início de cada uma das estações dos climas temperados, que no hemisfério Norte são o Imbolc ou Imbolg, a 1 de Fevereiro para a Primavera, o Beltane para o Verão, o Lughnasadh ou Lammas, a 1 de Agosto, para o Outono e o Samhain, a 1 de Novembro, que marca o início do Inverno.

O Beltane, Beltain ou Bealtaine é um festival celta que continua a ser comemorado nos dias de hoje, reconhecido nas comemorações da Festa da Primavera, mas que originalmente marcava o início do Verão e que é celebrado na noite de 30 de Abril e no dia 1 de Maio. O Beltane é o mais alegre dos festivais celtas, no qual os participantes dançam e se divertem em volta da fogueira, este é um festival da fertilidade, simbolizando a união entre as energias masculina e feminina, a fertilidade da terra e os fogos do deus celta Belenos[2] e toda sua energia e luz.

Historicamente, este festival tem-se mantido, sobretudo no Éire, Alba e Mannin (ou Ellan Vannin)[3], onde é conhecido respectivamente como Bealtaine, Bealltainn e Boaltinn ou Boaldyn, com paralelo no Calan Mai em Cymru[4], mas que ainda continua vivo em todo o mundo Celta, nomeadamente em Breizh[5] e Kernow[6], na Galicia, nas Asturias e no norte de Portugal[7].

Sendo um dos festivais das quatro estações, permanece profundamente arraigado na mitologia, na literatura e no folclore, e os seus rituais são realizados com o intuito de proteger contra as epidemias e as calamidades o gado, as culturas e as pessoas, e para incentivar a fertilidade e o crescimento.

A fertilidade nesta celebração identifica-se com o desabrochar da Primavera, com o abrir das flores, as sementes e a vida da prole animal, numa festa que deve ser regada de muita alegria, com danças, coroas de flores e um banquete que valoriza os alimentos da época e principalmente a fogueira, ou algo representando o fogo, a fim de que possamos permitir que este elemento nos livre das doenças e que reinicie a vida, na forma primordial, simples e pura.

Durante este festival em honra de Belenos, eram acesas fogueiras nos topos dos montes e em lugares considerados sagrados, sendo um ritual importante nas terras celtas, nas quais, como tradição as pessoas queimavam oferendas como, por exemplo, totens para que o poder do fogo fosse passado ao rebanho, e saltavam as fogueiras para que se enchessem dessas mesmas poderosas energias, como ainda se vê entre nós nos festejos dos santos populares[8].

Representa o início do Verão (ou seja, os dias grandes e soalheiros) e marca a morte do Inverno (das grandes noites, do frio e da chuva ou neve), sendo comemorado com danças e banquetes. Em Portugal, a Festa das Maias é um marcado vestígio deste festival celta.

Modernamente, a Festa das Maias ainda se celebra em algumas regiões de Portugal no dia 1 de Maio. As portas das casas ou as grelhas dos automóveis são enfeitadas com ramos de giesta amarela ou com coroas de flores, chamadas maia ou maio. É um vestígio do Beltane, uma antiga festividade celta, que celebrava o início do Verão.

Os Maios são celebrados um pouco por todo o território português, nomeadamente no Algarve, na região entre Loulé e Tavira, incluindo Faro (Estói) e na de Olhão, (Olhão, Moncarapacho, Quelfes), nos Açores (ilhas Terceira, Graciosa, etc.), na Madeira e também em várias zonas de España.

Era costume as crianças irem de casa em casa a cantar e a pedir. Em alguns lugares elas vestiam-se de maias floridas, isto é, enfeitavam-se com giestas.

O maio-moço era um rapaz que se vestia de maio. Ele andava com a roupa enfeitada de giestas, e trazia na cabeça giestas que formavam uma pirâmide. Saía pelas ruas com crianças a cantarem e a dançarem à volta dele, andando também pelos campos a esconjurar os maus espíritos para proteger as famílias e as colheitas.

Em Óbidos na noite de 30 para 1 de Maio fazia-se uma pequena festa na qual os rapazes e os homens da vila comiam bacalhau[9] pelas três ou quatro horas da madrugada, na longa noite dos Maios. Os rapazes, tinham que ir aos campos acompanhados pelo som de instrumentos musicais, apanhar maios ou outras flores como madressilvas, giestas floridas, folhados, rosas silvestres, etc., para espalharem durante a madrugada por toda a vila. A população para evitar que o “maio os encontrasse na cama” e “ficassem amarelos o resto do ano”, levantava-se cedo para ver a vila 'maiada' com as aldrabas das portas e as janelas das habitações enfeitadas com flores e o adro da igreja também coberto de flores. Iam depois ouvir a música e ver os foguetes.

No Algarve fazia-se uma boneca de centeio ou de trapos que se vestia de branco e rodeava de flores. Outro costume era vestir uma criança de maia, toda de branco e coberta de flores, ficando esta criança num tapete enquanto as outras cantavam e dançavam à sua volta. Na festa do Maio fazem-se bonecos no tamanho normal de pessoas que se vestem e calçam com a roupa de adultos ou crianças.

Designadas como "Cantigas das Maias", "Cantigas do Maio-moço", ou "cantar as Maias", consiste em, no primeiro dia de Maio, grupos de pessoas cantarem pelas ruas músicas alegres e festivas. O documento referido como a postura da Câmara de Lisboa de 1386, com o intuito de disciplinar as gentes sob as normas rígidas da inquisição, impedindo a manifestação de quaisquer resquícios dos costumes populares tidos por pagãos, proibia que se cantassem as Maias ou que se cantasse a qualquer outro mês: "Outrosim estabelecem que daqui em diante nesta cidade e em seu termo não se cantem janeiras nem maias, nem a nenhum outro mês do ano, […]".


[1]        Celtas é a designação dada a um conjunto de povos organizados em múltiplas tribos e pertencentes à família linguística indo-europeia que se espalhou pela maior parte do Oeste da Europa a partir do segundo milénio a.C. e uma boa parte da população da Europa ocidental pertencia às etnias celtas até à eventual conquista daqueles territórios pelo Império Romano. Os celtas organizavam-se em tribos, que ocupavam o território desde a Península Ibérica até à Anatólia. Existiam diversos grupos celtas compostos de várias tribos, entre eles os bretões, os gauleses, os escotos, os eburões, os batavos, os belgas, os gálatas, os trinovantes e os caledónios. Muitos destes grupos deram origem ao nome das províncias romanas na Europa, as quais mais tarde baptizaram alguns dos estados-nações medievais e modernos da Europa. A maioria dos territórios ocupados pelos povos celtas foi conquistada, e mais tarde integrada, pelos Romanos, embora o modo de vida celta tenha, sob muitas formas e com muitas alterações resultantes da aculturação devida aos invasores e à posterior cristianização, sobrevivido em grande parte do território por eles ocupado.
[2]        Na mitologia celta, Belenos era o deus do Sol, também conhecido como Belenus, uma divindade venerada na Gália, na Britânia e nas áreas celtas da Österreich (Áustria) e España, sendo a etimologia do nome obscura, mas as sugestões incluem brilhante único, o único luminoso e deus henbane. Nos famosos livros de banda desenhada do Asterix, de Goscinny e Uderzo, Beleno é um dos deuses frequentemente invocado.
[3]        Respectivamente, em inglês e português, Ireland e Irlanda, Scotland e Escócia, Isle of Man e Ilha de Man.
[4]        Ou Wales em inglês e País de Gales em português.
[5]        Ou seja, Bertaèyn, Brittania, Bretagne, Brittany, Bretanha, em galaico, latim, francês, inglês e português.
[6]        Cornwall e Cornualha em inglês e português.
[7]        Esta festividade também é relatada na obra "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley, mas importa realçar aqui que em épocas remotas a sexualidade dispunha dum lugar de destaque (e isento dos preconceitos impostos pela romanização e cristianização), pois como em muitos textos é mencionado, esta é a celebração da fertilidade.
[8]        Em Portugal é vulgar acender fogueiras nas noites de véspera dos santos populares, onde os jovens saltam a fogueira como manda a tradição, dizendo-se que quem saltar a fogueira, em número ímpar de saltos e no mínimo três vezes, fica por todo o ano protegido de todos os males.
[9]        Previamente havia sido feito um peditório pelas ruas, no qual era pedido um donativo às casas comerciais para comprar o bacalhau e o azeite.


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